4ª Parte: Moda de viola

Série Cabeça da Onça

Uma fogueira na beira do rio. Luar. Moda de viola. Fui surpreendida ao saber que Seu Bertino tinha até uma musica. ‘História da minha vida’ é regada de muita vitalidade (como todas as conversas do velho na varanda de casa) e seu som nos leva por uma boa moda de viola daquelas que quase não se ouve mais por ai. A composição é do filho que deixou de lado ‘o desenvolvimento’  da cidade para fazer companhia pro homem que lhe ensinou valores da vida, como a familia e o trabalho.

História da minha vida

Eu vim de um lugar distante, do outro lado de lá

Lugar tão maravilho de nome Araçá

Fica no pé da Serra, você pode ver daqui

Lugar tão maravilhoso, cantinho de Juruti

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3ª Parte: O banho de rio

Série Cabeça da Onça

Os tons de laranja e azul no céu anunciavam que mais um dia ia começar. Na cidade provavelmente eu ia está atrasada pra algum compromisso. Mas ali não. Meu único ‘afazer’ era com o banho de rio. Banho quente e entre quatros paredes tinha ficado pra trás. Dividi o momento tão meu com outras pessoas e com a imensidão do rio. Mas a beleza ainda estava por vir.

-Deixa eu tirar uma foto sua?

A pergunta aproximou o único menino da casa que ainda desconfiado com a minha presença fingia ignorá-la. O morador da cidade grande tem medo. Medo do assalto, medo do estranho, medo do sequestro. O ribeirinho é desconfiado e estranha ali era eu. Precisava cativa-lo. O fiz. Deixei que me ensinasse a pular do barco e como manter o folego na hora de voltar pra beira da praia. Eu já sabia de tudo isso mesmo antes de chegar ali – mas o pequeno ribeirinho não precisava saber disso.

Entre um mergulho e outro as imagens de infância passearam na minha mente. Sim. Eu vivi aquilo no meu tempo de menina. A mansidão do rio também faz parte de minha vida.

A relação do homem com o rio é bonita de ver. Meninos criados tão proximos de rios e matas não conhecem os jogos de computador e pouco se importam com isso. É o rio que envolve e junta no final da tarde crianças, jovens e velhos. Uns conversam sobre o desenvolvimento da vila, outros sobre os estranhos visitantes que chegam por ali e os mais novos apenas banham no rio. Apenas! Quase todos os mergulhos são acompanhados de um sorriso ou uma pirueta. Não se pula só por pular dentro do rio. Provavelmente essa é uma arte que eu ainda desconhecia. A arte de viver na beira do rio.

Foi ali que eu entendi o valor da riqueza. Uma riqueza que não se resume a valores bancários ou titulos. Mas ao valor de morar tão perto da imensidão do rio, da floresta e do céu. Sim, do céu. Porque Deus só pode ter reservado a parte mais bonita e estrelada pras bandas de lá.

Veja mais fotos no flickr

continua

2ª Parte: Viver por aqui

Série Cabeça da Onça

Aceitamos o convite. Depois de ouvir o barulho do gerador de luz que intensionalmente informava que ia começar o Jornal Nacional, Seu Amaral – filho do Seu Bertino, e dono da casa que eu ia ficar até o domingo, chamou mulher e filhas. Era hora de desafiar a noite e o caminho que fica na beira do rio até a casa do Seu Bertino e Dona Lucinda. Casados há exatos 52 anos os dois mantem o sorriso no rosto e não poupam esforços para agradar a pessoa estranha no ninho dos Amaral. A comunidade é formada por pequenas ilhas onde chegam a morar até três famílias. É o Rio Amazonas que define o tamanho do terrenos. Quando rio enche o quintal diminiu. Quando seca a areia branquinha torna a aparecer e praias se formam na frente das casas de madeira e cobertas de palha.

No quarto do casal as duas familias assistem juntas a TV. A parede de madeira é coberta de fotos das epocas mais remotas de uma juventude que Seu Bertino deixou pra trás há muito tempo. Provavelmente uma juventude da materia e não do espírito. Já outras fotos revelam a infância dos 12 filhos hoje ‘formados’ que orgulhosamente Seu Bertino faz questão de salientar enquanto conta a dificuldade que foi educar ‘os meninos’. Dificuldades porque são de uma época em que não existiam tantas escolas e o acesso a cidade era muito mais complicado. Hoje o onibus escolar vem buscar o aluno na comunidade e deixar depois da aula. A janta estava pronta.

Peixe, caldo e farinha. Essa foi a refeição daquela noite de sexta-feira. A família se aproximou. Todos se sentaram e eu fiquei ao lado do Seu Bertino. Ele, claro, fez muitas perguntas. Perguntou se eu sabia rezar. Respondi que sim e ele, como bom crente que é, pediu pra fazer a oração em agradecimento pelo alimento que eu vi preparar. Agradeci. Ele sorriu com o ar de que ‘eu estava no caminho certo’. Por menor que pudesse ser aquele momento, ele tinha algo proprio da vida numa comunidade longe das luzes das cidades grandes e do asfalto: a simplicidade do ser e existir. Seu Bertino era a própria vida disso.

Com 81 anos de idade e 52 ao lado da mulher que ele só viu uma vez antes de pedir em casamento, Seu Bertino faz parte da parcela da população que vive dignamente a vida. Conhece de tudo um pouco e um pouco de tudo. Num dedo de prosa distribuiu saberes sobre a existencia dos dinossauros, a criação divina do homem e sobre matemática. Ria enquanto contava as proezas de menino que passava a tarde decorando a tabuada pra não ser surpreendido com a palmatoria na manhã seguinte na escola – que ele tem orgulho em dizer que frequentou. Ele ria também com os olhos que carregavam um ar já cansado, mas nunca triste.

Passou as horas a me questionar sobre as coisas da vida e de um passado que eu só conheço dos livros de história. Vez em quando olhava fixo nos meus olhos e dizia ser um cientista. Em alguns momentos, entre as lições que recebia daquele velho conhecedor da vida, ouvia ele me chamar de professora, cientista ou doutora. Disse que eu tambem precisa ser uma cientista da vida.

A distância entre os dois mundos tão diferentes foram diminuindo a cada nova lição, conselho e história a medida que se passavam as horas e o dia.

continua

Leia a 1ª parte: Travessia do rio e aguarde as proximas.

1ª Parte: Travessia do rio

Série Cabeça da Onça

Deixamos a Juruti do asfalto, trânsito e carros volante pela Juruti que ainda segue o ritmo da água mansa do Rio Amazonas e sem energia elétrica. A viagem de rabeta (canoa de mais de seis metros feita de madeira e com motor) é lenta e não deixa escapar nenhum detalhe da vida que fica as margens do rio. A janta dessa noite foi comprada ali mesmo, na frente da cidade e sem grandes negociações. Cada peixe custava um real. Compramos oito.

Na rabeta, três experientes viajantes, uma saca de gelo pra conservar a alimentação dos proximos dias, um pacote de refrigetante, oito peixes ainda vivos boiando numa poça de água no fundo da rabeta e eu. No percurso, que durou mais de 40 minutos, fomos acompanhados por outros pequenos barquinhos e botos que subiam e desciam como de proposito na frente da câmera fotográfica – pena que eles são rapidos demais. O horário foi propicio para documentar ‘o por do sol’. Veja as fotos no flickr.

Aos poucos o por do sol vai dando lugar a noite e ao frio. As outras pessoas dentro da rabeta já conhecem bem o percurso – tudo só é novo na minha vida. Seu Bertino com seus oitenta e um anos vai na proa (parte da frente) da rabeta. Chapéu branco que ele usa em todas as viagens e um óculos especial – a iluminação lhe dói a vista. É ele quem aponta o caminho a ser seguido pelo condutor. Sem usar as palavras, apenas levanta o braço direito e aponta o norte. O condutor, Renato – filho adotivo, obedece sempre com um sorriso no rosto e também sem palavras. Vez enquando o velho olhava pra tras e dizia ‘então a doutora é jornalista’. E voltava-se pra frente. Olhava pra trás novamente e tornava a perguntar de onde eu era. Quis também saber se jornalista ganha bem. Respondi que não. Mas que a vida de jornalista proporciona momentos especiais – como o que estavamos vivendo ali. Com jeito de quem ficou insatisfeito com a resposta, se voltou pra frente. Depois perguntou se eu já tinha tomado a vicina contra aquela gripe (H1N1). Disse que ela doi muito e que é igual a outras doenças que só dá uma vez na pessoa. O assunto foi abordado até a derradeira evidencia com o apoio da neta do Seu Bertino, Ruth, e novamente o silencio tomou conta da rabeta que mansamente dividia o rio Amazonas em dois.

De dentro da rabeta, essencia do Seu Bertino desafiava a estrutura de ferro enficada dentro do rio formando o porto da mineradora Alcoa há menos de 10 minutos da cidade. O velho olhar, agora incredulo, vagava lentamente pela ferragem até que alcançou novamente o rio. O restinho de cidade e grandes investimentos foram ficando pra trás e dando lugar paras ilhas que abrigam uma ou duas casas que se confundem com um pouco de floresta baixa, bois, cavalos e por do sol. Alguns minutos depois só dá pra ver água e floresta. Vez em quando outras rabetas ou canoas a remo atravessam o caminho. A buzina dos carros aqui é substituida por um aceno de mão simpatico acompanhado do “tudo bem cumpadi?”. A viagem continua.

Passamos a contemplar a noite. A lua já na imensidão do céu acompanhada de um unica estrela compõe o cenario. Agora eramos nós e as estrelas. Durante alguns momentos eu me perdi naquela imensidão. Seu Bertino também. Como bom crente à Deus que é, ele ficou durante longos períodos, sozinho com a aquela beleza. Voltamos. Já era hora de descer.

-Até. Vá lá em casa jantar o peixe.

Chegamos. Ia ficar ali por mais dois dias.

continua.

Acompanhe durante essa semana novas publicações sobre a experiência de viver numa comunidade que fica nas margens do Rio Amazonas.

2ª Parte: Viver por aqui

3ª Parte: O banho de rio

4ª Parte: A soltura de quelônios

5ª Parte: De volta pra casa