Coisa de menina

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Copiado do Blog Beleza Mocoronga.

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Pará: um roteiro de viagem

“…diz a lenda que o Eldorado é uma cidade de ouro, escondida em algum lugar da região amazônica, mas quem descobriu onde ela se encontra nunca voltou pra contar o que viu”.
 
 
Fomos atrás desse Eldorado, levados por uma empresa que patrocinou um projeto de resgate de raízes culturais no Pará, realizado com a linguagem cênica do Pasárgada e que fizesse uma homenagem a brava gente brasileira que se encontra espalhada pelo país afora.
 
                        “Uma gente que cava a terra, engole o rio
                        e come o pão que o diabo não quis.
                        Uma gente que sobrevive como pode,
                        leva na mala o sonho de conquista
                        e a esperança de se encontrar
                        nas terras do sem fim”
 
Próxima Parada. Um espetáculo musical que pudesse ser visto por qualquer tipo de público, que entre o início do projeto e a realização da temporada durou um ano. Pesquisa, visita técnica, produção executiva, seleção de um elenco muito especial: Lílian de Lima, João Carlos Deon, Débora Carolyne, Thiago Rocha, Verônica Melo, Janaina Rocha, e Gilberto Fernandes, músicos e atores com afinidades e trabalho de grupo. Pessoas únicas e brilhantes, artistas aventureiros e desbravadores com compromisso, coragem e garra para enfrentar um mês de temporada na região; 45 espetáculos, 3 espetáculos diários, lugares e espaços diferentes, pátio de escola, ginásio de esporte, centro recreativo e assentamento Palmares do MST. Calor intenso de 35 graus à sombra, para um público de 8.000 pessoas, entre crianças, jovens e adultos. Na retaguarda em São Paulo, uma outra parte do Grupo dando apoio logístico e operacional: Ricardo Aguiar, Keila Taschini, Eber Mingardi, Valnice Vieira Bolla e Heron Medeiros.
 
 
 
 PRIMEIRA PARADA
 
PARAUPAEBAS. Sul do Pará, duas horas de van depois de Marabá. Estrada precária, sem proteção nas pontes, declives e riscos. Quem conhece o lugar não aconselha viajar de noite. A floresta amazônica não há mais. A terra é uma secura de dar pena, virou pasto ralo pra um gado magro e esquelético.
 
Parauapebas é uma cidade que estampa as diferenças sociais e revela suas contradições imediatamente, fundada entre o ouro dourado de Serra Pelada e o ouro negro de Carajás.
 
            “Pebas é uma cidade do futuro, boa pra gente esperta ganhar dinheiro”.
 
A maioria dos habitantes simplifica o nome pra falar mais rápido, porque a cidade tem pressa, menos de 30 anos e mais de 160 mil habitantes, a previsão é de que em 5 anos a população será o dobro. Diariamente não param de chegar levas e levas de brasileiros à procura de trabalho. Uma grande avenida, divide a cidade em duas Parauapebas, como linha divisória entre os bairros da cidade nova com lojas, hotéis e prédios comerciais e a cidade velha com casas de madeira, esgoto a céu aberto, lixo nas ruas e crianças barrigudas. Uma avenida que corta a cidade de ponta a ponta e vai terminar na portaria de entrada para Carajás, cidade satélite, com pouco mais de 3.000 habitantes construída pela Vale para abrigar pessoal de apoio técnico, engenheiros e suas famílias que trabalham para a mineradora.
 
Muito rapidamente fomos se apropriando da realidade local e no dia a dia, nas conversas com os moradores, os viajantes passageiros, os artistas locais, fomos percebendo que aqui existem brasileiros de todos os cantos do país. Pessoas de pele escura, queimada de sol amazônico. Olhar apático, desconfiado e distante, como a imensidão e o vazio que sobrou da floresta.
Na avenida de Pebas, rede de lojas de eletrodomésticos vendidos em prestações infinitas, camelôs nas portas anunciando as mesmas quinquilharias dos grandes centros urbanos, aqui ainda sem a presença do rapa, bancos apinhados de gente até 9 horas da noite, convivendo com o barulho ensurdecedor de carros de som anunciando as promoções da loja tal, disputando o volume com centenas de carros de candidatos às próximas eleições. Jingles sonoros com os mais variados estilos musicais, até um insistente bate estaca:
 
             “é quinze, é quinze, é quinze… é quinze vezes,  é quinze neles ”
 
repetidos quinze vezes para condicionar o eleitor no número do candidato e matar de raiva os visitantes. Sem nenhuma lei que regule os decibéis, assim como o entulho jogado nas margens do rio Parauapebas, sendo assoreado pela atitude irresponsável e criminosa do dono de um dos principais hotéis da cidade:
 
“aqui ninguém liga, ninguém fiscaliza, cada um faz do jeito que quer, é uma terra sem lei e poucos donos ”.
 
E aí, a gente olhava um pro outro e fazia de conta que entendia. No começo  queríamos interferir, agir, denunciar aquele estado de abandono e descaso generalizado, demorou para entender que quem tem que provocar e exigir as mudanças necessárias são as pessoas que vivem esta realidade. Nessa viagem, nós éramos apenas passageiros. Passageiros de uma aventura com data e dia para terminar. Melhor aproveitar a nossa vinda para olhar em outra direção e se emocionar com o público extasiado durante as apresentações, assistindo teatro pela primeira vez e no final aplaudindo de pé, muitos voltando duas ou três vezes para assistir a próxima sessão.
 
 
 Durante nossa temporada em Pebas, convidamos os grupos de teatro da cidade para assistir o espetáculo, debater e participar de uma oficina de criação, interpretação e jogo teatral. Apareceram 4 ou 5 grupos, por volta de 25 pessoas. Cada grupo com uma proposta, cada grupo na sua, sem nenhuma relação entre eles. Todos com vícios naturais da falta de conhecimento, orientação, continuidade e pesquisa. Nossa sugestão foi de que aproveitassem nossa vinda para cobrar da administração pública e das empresas locais, a contratação de profissionais de teatro de Belém para promover formação e capacitação e gerar a longo prazo, um movimento de teatro no município para atender a carência cultural da região.
 
 
 
 
 PRÓXIMA PARADA
 
CARAJÁS ! 25 km de Pebas. Pra chegar temos que ser identificados na portaria por fiscais e seguranças. Área de segurança nacional. Estrada bem sinalizada e pavimentada, serpenteando a floresta ou o que restou dela, quando instalaram a mineradora.
 
Estréia para patrocinadores e parceiros. Teatro do Núcleo de Carajás, 450 lugares, palco de 12 m de boca por 16 de profundidade, mas sem nenhum recurso de luz. Usado para projeção de filmes e eventualmente algumas atividades culturais. Fora do teatro é um barulho ensurdecedor… Cigarras, pássaros e jequitibás balançando lento com a preguiça do vento. Um cidade projetada, satélite, um modelo de paraíso possível e habitado. Tem tudo de uma grande metrópole: bancos, lojas, lanchonetes, hotéis, zoológico, praças com árvores centenárias, macacos, pacas, cobras e cotias, no mesmo espaço primitivo. Nessa harmonia e realidade bucólica, é proibido ter cachorros ! Neste paraíso, as crianças vão pra escola sozinhas, andam de bicicletas sem se importar com os carros, as casas estão sempre  de portas e janelas abertas, não existe assaltos e nem shopping center. Diálogo entre os atores:
 
 
ATRIZ:- Isso aqui é um paraíso, mas parece que essa gente não é feliz”.
ATRIZ:- Também acho ! Parece que tá faltando alguma coisa.
ATOR:- Deve ser porque falta conflito. E a vida sem conflito é uma merda !
ATRIZ:- Aí que saudade da poluição e do engarrafamento de São Paulo.
(Risos de todo elenco)
DIRETOR:- Bóra, gente! Amanhã cedo temos espetáculo na escola do assentamento. São vinte quilômetros de estrada de chão, poeira e van sem ar condicionado. Levem muita água e riso na cara que só faltam 29 apresentações.
TODOS: Num lembra !!!(Elenco em coro, soca o diretor)
 
PRÓXIMA PARADA
 
Assentamento Palmares do MST. No meio do caminho, uma área invadida. Ranchos de pau a pique, cobertos de buriti, ao todo umas 500 famílias. Crianças, jovens e adultos, aproximadamente 3.000 pessoas acampadas. Uma semana depois não havia mais nem sinal do acampamento, as famílias foram expulsas e os ranchos queimados. Por sinal, uma coisa que se vê muito por aqui são as queimadas. Queima-se o capim seco para que o pasto brote na época das chuvas. Estamos em agosto e por enquanto só seca e estiagem. Chuva mesmo daqui seis meses.
No assentamento fomos recebidos pela diretora da escola. Deusimar, ou Deusa como é conhecida, uma das principais lideranças do movimento,  militante que ainda encontra energia para fazer pós graduação em pedagogia no Rio Grande do Sul. Palmares é uma conquista e uma referência; pouco mais de 4.000 habitantes, escola para mais de 1.000 alunos e ponto de encontro de toda comunidade, todos os camponeses tem seus títulos de posse garantidos, cada um com 3 ou mais alqueires de terra, plantam mandioca, fazem farinha e vendem em sistema de cooperativa no mercado livre de Pebas. E depois de muita luta, com investimento do governo federal, estão asfaltando a estrada de acesso até Pebas.
 
            “Uma longa história de lutas e conquista. O processo começou desde a   década de noventa. Mobilizações, invasões, marchas de idas e vindas     para conseguirmos a posse da terra. Temos convicção e consciência do          nosso papel, mas não podemos acomodar, principalmente com a             imagem deturpada que a mídia,  comprometida com os grandes    interesses do capital,  vende sobre nossa luta e nosso movimento.
 
Deusa, presenteou o Grupo com um cd de músicas dos “povos invasores e assentados(grifo nosso) e um livro sobre a pedagogia do movimento na educação das crianças. Nele aparece um dos conceitos importantes do MST logo que ocorre uma invasão, é determinado um espaço no acampamento pra ser a escola e debaixo da lona, um educador reúne as crianças e ensina embasado no contato direto com a natureza, utilizando como métodos; a pedagogia construtivista e freiriana e ainda o resgate de jogos e brincadeiras infantis adaptadas para a realidade das crianças do Movimento.
As crianças em sua maioria de pés no chão. De nomes diferentes, difícil de pronunciar, de travar a língua. Lindas, sorriso acanhado e depois riso aberto e alegre. Para assistirem o espetáculo, plástico preto no chão para sentarem. Uma sessão noturna para toda comunidade com direito a pipoca e refrigerante. Encontro de pais, filhos e amigos para ver e ouvir o teatro mostrar uma história com música, causos, tipos e figuras mitológicas da região: Mapinguari, Matinta Pereira e Cobra Grande. Estranhamento no início, identificação e cumplicidade no final. Quando fomos desmontar o cenário para novamente botar o pé na estrada, muitas crianças nos abraçaram e não queriam se soltar.
 
– Não vai imbora não !Fica morano aqui com a gente !
 
Quando a emoção bate fundo demais é hora de partir e quem sabe olhar pra frente, se permitir sonhar e levar na mala o futuro; todas essas crianças, colhendo o ouro da inclusão, da justiça e da dignidade.  
 
PRÓXIMA PARADA
 
CANÃA. Uma hora e meia de viagem depois de Pebas, passando pela Serra dos Carajás. Uma cidade ainda pequena, 16 anos, 20 mil habitantes. Também com sua avenida principal que concentra todas as atividades locais; bancos, moto táxis, padarias, hotel, residências e lojas comercias. Casas de madeira contrastando com as casas de alvenaria. No início da fundação da cidade a madeira era comum, substituída aos poucos, pelas construções de alvenaria; blocos de concreto, cimento e ferragem. Alguns bairros com casas de alto padrão. Uma cidade mais planejada do que Parauapebas, pequena ainda mas almejando o mesmo crescimento.
Nossa temporada na cidade foi na Casa de Cultura, mantida pela Vale. Debaixo de uma tenda, com apresentações diárias sobre o sol de 35 graus de derreter até o texto e o pensamento. Dois ventiladores de frente e dois de fundo, 20 litros de água por sessão e nos intervalos, o elenco espremido, deitados numa sala com ar condicionado, improvisada de camarim. Espetáculos noturnos para moradores, seus filhos e familiares e durante o dia para crianças e jovens das escolas locais, trazidas por ônibus e microônibus que quando os motoristas dispunham de boa vontade e a prefeitura conseguia organizar, traziam mais de 120 alunos por viagem.
Ficamos hospedados no hotel que nos indicaram, mas um dia antes de terminar a temporada fomos convidados a nos retirar:
 
“  éramos pessoas difíceis de ser tratadas, reclamávamos de tudo, desde a falta de pãozinho no café da manhã, piscina do hotel que com filtro quebrado, barulho das arrumadeiras às 7 horas da manhã, falta de espaço nos quartos para colocar malas, troca de roupa de cama duas vezes por semana, lâmpadas e trincos nas portas dos banheiros e etc. E poderíamos nos retirar sem pagar a diária. Ficaria como cortesia e que fizéssemos uma boa viagem.
 
            Fechamos a conta no dia seguinte, fizemos questão de pagar a estadia… com desconto e trouxemos a certeza absoluta de que tudo ainda está pra ser construído. Falta tudo, mão de obra especializada, atendimento adequado, infra-estrutura e planejamento. Tudo com cara de atropelo e improviso, como uma minúscula fotografia do Brasil, em 3×4. A revelação de que na região amazônica existem muitos eldorados, escondidos, bem próximos dos nossos olhos. O ouro dourado submerso sob o lago de Serra Pelada, o ouro negro que sai da mina por um buraco que parece nunca ter fim e o ouro do sonho, dos grandes investimentos que cega e fascina.
Dizem que em Serra Pelada ainda existe ouro pra muitas gerações e que só foi retirado 30% da jazida. Do buraco sem fundo da mina em Carajás, saem diariamente 330 toneladas de minério, transportados por um comboio de vagões, puxados por 4 locomotivas, que demoram 20 minutos para passar até sumir de vista, em direção ao porto de São Luis, Europa e outras partes do mundo,  levando embora pra sempre nossa riqueza.
 
            “Dizem que tem minério pra mais de 300 anos, mas a miséria e o abandono da região não vai poder esperar tanto tempo e o ouro do   eldorado está lá, mas é para poucos escolhidos”.
 
 
Uma parada breve antes de pegar o vôo em Marabá. Descer do micro ônibus e esperar a poeira baixar na estrada. Terra de chão batido ao lado do asfalto. Na nossa frente árvores retorcidas como pedras sepulcrais. Uma prece e uma lágrima sobre o monumento de luta e resistência sobre o massacre perpetrado. Dezenove lápides, somente os nomes, sem grandes e eloqüentes epitáfios. Desafiando o tempo, inexorável na paisagem seca e árida.  Aqui jaz… trabalhadores sem terra e sem justiça. Eldorado de Carajás.

 

 
 
 
Alguns dias depois indo para a CPT, fazer sugestão de pauta para a edição da CAMARIM, passei ao lado da favela Paraisópolis e do lado, apartamentos de cobertura no Morumbi. Foi inevitável a reflexão sobre as contradições que nos cercam e que nos enlouquece, como o ouro brilhante no eldorado e do ser humano em busca da sua tragédia, seu destino ou sua libertação. Nessa viagem, no meio da selva amazônica ou na favela dessa grande metrópole, somos todos viajantes passageiros, nesta terra do sem fim, todos em busca da  PROXIMA PARADA !              
                      
José Geraldo Rocha, é diretor e um dos fundadores do Grupo Pasárgada, que tem 37 anos de existência e uma longa história com teatro para a infância e juventude, caracterizada por um enfoque de curiosidade e investigação sobre o universo infantil. Esta trajetória tornou-se referência de teatro em grupo, pesquisa de linguagem, estética, espetáculos populares, produções cooperativadas, várias premiações e uma trajetória de teatro itinerante.  Montagens como Panos e Lendas, Velhos Retratos, Moinhos e Carrosséis, Avoar, Pequenas Estórias Sem Pé nem Cabeça, apontaram caminhos e alternativas para o teatro feito para todas as idades nas últimas décadas, pelo reconhecimento público e premiações, entre elas; Governador do Estado, Mambembe, APCA, APETESP e outros. Estas encenações tiveram como proposta e conteúdo, olhar a criança e o jovem a partir de uma perspectiva diferenciada do teatro convencional.