Liderança de Puelito Kue | Guarani-Kaiowá

informe:

Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado deve realizar na próxima semana uma audiência pública para tratar da situação dos índios Guarani-Kaiowá, ameaçados de expulsão de suas terras tradicionais na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul. O presidente da Comissão, senador Paulo Paim (PT-RS), afirmou que pretende realizar o debate com as partes envolvidas no conflito o quanto antes. Para isso, ele pretende aprovar um requerimento na segunda-feira (29), quando a CDH se reúne às 9h.

 Podemos ter lá uma matança, um assassinato coletivo, ou genocídio. Não importa o nome, o que importa é que homens e mulheres índios poderão perder a vida devido ao conflito lá instalado – disse o senador em entrevista à Rádio Senado.

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Veja uma das lideranças da comunidade dando a real sobre o que está se passando por lá – produção da Associação Cultural de Realizadores Indígenas, em parceria com a Aty Guasu.

Bob Fernandes – Guarani Kaiowá: motivos, e reações

Fonte: Bob Fernandes

Neste ano de 2012 pelo menos outros 30 Kaiowá/Guarani se suicidaram no Mato Grosso do Sul.

Entre os anos de 1986 e 1999 – ano em estivemos na região e reservas/aldeias de Dourados o fotógrafo Luciano Andrade e eu- 308 jovens (entre 12 e 28 anos) índios haviam se suicidado. Mais de 90% deles por enforcamento. A SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde) informa oficialmente que entre os anos 2000 e 2011 outros 555 jovens Kaiowá/Guarani se suicidaram. Nunca suicídios “coletivos” como, por desinformação ou má intenção, se espalhou por aí.

“Tekoha” é expressão que, a grosso modo, significa lugar onde se pode viver da maneira tradicional. “Teko” quer dizer “jeito de ser”, jeito de viver, e “ha” é “lugar”. A luta dos Kaiowá/Guarani é pelo seu Tekoha.

O confinamento em espaços cada vez menores, a “mistura”, imposta, com outras etnias e raças, as decisões judiciais que levam à expulsão de suas terras, o cerco e assassinatos promovidos por pistoleiros e fazendeiros -sempre impunes- são alguns dos muitos motivos dessa tragédia. Tragédia que leva aos suicídios chamados “sansônicos”. Traduzindo: “suicídios de protesto”.

 

obs.: esse jornalista tem minha admiração.

Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue

Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue
Fonte: Conselho Indigenista Missionário

O Cimi entende que na carta dos indígenas Kaiowá e Guarani de Pyelito Kue, MS, não há menção alguma sobre suposto suicídio coletivo (1) , tão difundido e comentado pela imprensa e nas redes sociais (2). Leiam com atenção o documento: os Kaiowá e Guarani falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-las. Vivos não sairão do chão dos antepassados. Não se trata de suicídio coletivo! Leiam a carta, está tudo lá. É preciso desencorajar a reprodução de tais mentiras, como o que já se espalha por aí com fotos de índios enforcados e etc. Não precisamos expor de forma irresponsável um tema que muito impacta a vida dos Guarani Kaiowá.

O suicídio entre os Kaiowá e Guarani já ocorre há tempos e acomete sobretudo os jovens. Entre 2003 e 2010 foram 555 suicídios entre os Kaiowá e Guarani motivados por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas. Nenhum dos referidos suicídios ocorreu em massa, de maneira coletiva, organizada e anunciada.

Desde 1991, apenas oito terras indígenas foram homologadas para esses indígenas que compõem o segundo maior povo do país, com 43 mil indivíduos que vivem em terras diminutas. O Cimi acredita que tais números é que precisam de tamanha repercussão, não informações inverídicas que nada contribuem com a árdua e dolorosa luta desse povo resistente e abnegado pela Terra Sem Males (3).

Conselho Indigenista Missionário, 23 de outubro de 2012

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Essa carta merece ser um pouco esclarecida. Destaco alguns pontos.

(1) […] não há menção alguma sobre suposto suicídio coletivo – Ok. Também acho que há certa confusão na aplicação dos ‘termos’ usados e da interpretação desses para a ação sujeita a acontecer com aquele povo, que é a morte – pura e simples morte. Suicidio, homicidio, morte coletiva – independente de qualquer um dos termos utilizados ou não, o que está por acontecer ali é o extermínio de um povo e suas crenças. É cegueira cultural. É falta de humanidade.
(2) […] tão difundido e comentado pela imprensa e nas redes sociais – Ok. Nas redes sociais eu até concordo e compartilho. Já o caso da imprensa, é um pouco mais delicado. Acredito que o Cimi leve em conta a mídia alternativa, livre e até aquela que abraça a causa indigenista. Como leitora desses veículos, sei que ele não chegam pra maioria da população. Ou alguem aí tem a ilusão que ‘Carta Capital’, ‘Forum’ e ‘Portal Cimi’ são mais lidos que a Folha de S. Paulo ou o Ego|Globo.com, ou até mesmo a Caras???? Ein??
(3) Realmente os numeros são bem expressivos. Mas em pouco mais de 500 anos, nós fomos responsáveis pela morte de indigenas e das florestas para atender nossas necessidades urbanoides e há muito tempo que números como esses são expostos – aprendi algo parecido na 7ª série e de nada mudou. Já deu pra ter uma noção de que eles não ajudam em muita coisa. Se não tocar no coração, não humaniza. Se não sangrar, não humaniza.

Eu não vou deixar de destacar a situação dos Guarani Kaiowá por conta de números. Os números são de ontem, antes de ontem e de amanhã. E eu estou preocupada com o hoje, o agora. Segundo a carta, eles fazem apenas uma refeição por dia. A média de pessoas que acessam o Facebook, Twitter ou leram a carta da CIMI já devem ter feito pelo menos duas refeições e beliscaram alguma coisa no dia de hoje. Também já beberam água mineral filtrada. E vão querer que eu me preocupe com números??? Não. Não agora, por favor.

Pessoalmente, admiro o povo Guarani Kaiowá. Admiro-os pela coragem, pela honestidade, pelo sangue derramado. Admiro-os porque submetem seu corpo e sua ancestralidade ao extermínio por não suportarem mais esse mundo desgovernado – esse mundo Brasil que tirou deles a terra, o sustento, o direito a vida, o canto e as rezas. Quantos de nós também não ‘perdemos’ diariamente a vida por estarmos presos a relacionamentos sem futuro, empregos sem amor, sonhos sem esperança??? Isso também é morte – morte da nossa essencia. De coração, o que os Kaiowá fizeram até aqui é um baita exemplo de que não podemos deixar morrer em nós a nossa cultura, nossa ligação com o superior e muito menos a nossa honra.

Apoio aos índios Kaiowá-Guarani

O cineasta e ativista Pedro Rios Leao, estará nos próximos dias em missão no Mato Grosso do Sul para tentar impedir o genocídio de 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças…

“Eu realmente vou me meter de forma direta no genocídio iminente dos Guarani-kayowá. E só não vou morrer assassinado lá com eles se vocês se meterem nisso comigo…”

Eu, infelizmente, só fiquei plenamente alertado pela situação dos índios com a carta que eles enviaram. Nós temos que nos lembrar que pode não ser nossa culpa, mas é responsabilidade esse extermínio. O Governo tem o monopólio da violência e é o governo que a está produzindo e legitimando. Nós todos sustentamos o governo com o nosso trabalho. Eu vou me meter nisso e estou com medo, posso dispor do meu corpo e de minha total consciência para tentar impedir um genocídio, do qual a minha complacência só me responsabilizaria. O que está acontecendo la é conflito armado.Isso é o Brasil. Meu país. Não é porque nós fomos confortavelmente criados assistindo a Regina Duarte, que os homicídios não existem. Parece que as pessoas se esqueceram o que é genocídio.

O governo pode suprimir imediatamente a violência, impedir a ação dos pistoleiros e garantir a segurança de todos nós. Mas ele não fará isso por vontade própria. Nós temos que pressionar por todos os meios necessários os ditos “nossos empregados” ou ‘representantes da vontade popular”. O que acontece com os índios não é diferente do que o que acontece com quilombolas, ou favelados. Mas eles estão nas vésperas da morte. E estão dispostos a morrer sem abandonar a sua Terra com as próprias pernas. Vamos esperar quantos genocídios para tomar uma atitude? O Governo pode parar com isso AGORA e é obrigação de qualquer um que se diga jornalista para o bem da sociedade relatar o extermínio grosseiros de homens, mulheres e crianças cometido com o aval do estado.

REDE GLOBO:
http://falecomaredeglobo.globo.com/
400 22 884 (custo de uma ligação local).

REDE RECORD:
http://www.recordrio.com.br/denuncia.php
Telefone
(21) 2125-1313
Telefone Apuração RJ
(21) 2125-1250

GOVERNO:
http://www.pgr.mpf.gov.br/
http://portal.sdh.gov.br/
http://www.governofederal.com.br/portal/
http://www.transparencia.mpf.gov.br/

 

 

 

Carta dos Guarani-Kaiowá

“Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.

Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Assim, entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio/extermínio histórico de povo indígena/nativo/autóctone do MS/Brasil, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça Brasileira.

A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas?? Para qual Justiça do Brasil?? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados 50 metros de rio Hovy onde já ocorreram 4 mortos, sendo 2 morreram por meio de suicídio, 2 morte em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um (01) ano, estamos sem assistência nenhuma, isolada, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia-a-dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay.

De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais.

Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal, Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado. Sabemos que seremos expulsas daqui da margem do rio pela justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em ser morto coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.”

À Sombra de um Delírio Verde from Midiateca Copyleft on Vimeo.

Post recolhido do Facebook do ativista Pedro Rios Leão.