Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue


Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue
Fonte: Conselho Indigenista Missionário

O Cimi entende que na carta dos indígenas Kaiowá e Guarani de Pyelito Kue, MS, não há menção alguma sobre suposto suicídio coletivo (1) , tão difundido e comentado pela imprensa e nas redes sociais (2). Leiam com atenção o documento: os Kaiowá e Guarani falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-las. Vivos não sairão do chão dos antepassados. Não se trata de suicídio coletivo! Leiam a carta, está tudo lá. É preciso desencorajar a reprodução de tais mentiras, como o que já se espalha por aí com fotos de índios enforcados e etc. Não precisamos expor de forma irresponsável um tema que muito impacta a vida dos Guarani Kaiowá.

O suicídio entre os Kaiowá e Guarani já ocorre há tempos e acomete sobretudo os jovens. Entre 2003 e 2010 foram 555 suicídios entre os Kaiowá e Guarani motivados por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas. Nenhum dos referidos suicídios ocorreu em massa, de maneira coletiva, organizada e anunciada.

Desde 1991, apenas oito terras indígenas foram homologadas para esses indígenas que compõem o segundo maior povo do país, com 43 mil indivíduos que vivem em terras diminutas. O Cimi acredita que tais números é que precisam de tamanha repercussão, não informações inverídicas que nada contribuem com a árdua e dolorosa luta desse povo resistente e abnegado pela Terra Sem Males (3).

Conselho Indigenista Missionário, 23 de outubro de 2012

——————- xxxxxxxxxxxxx ——————-

Essa carta merece ser um pouco esclarecida. Destaco alguns pontos.

(1) […] não há menção alguma sobre suposto suicídio coletivo – Ok. Também acho que há certa confusão na aplicação dos ‘termos’ usados e da interpretação desses para a ação sujeita a acontecer com aquele povo, que é a morte – pura e simples morte. Suicidio, homicidio, morte coletiva – independente de qualquer um dos termos utilizados ou não, o que está por acontecer ali é o extermínio de um povo e suas crenças. É cegueira cultural. É falta de humanidade.
(2) […] tão difundido e comentado pela imprensa e nas redes sociais – Ok. Nas redes sociais eu até concordo e compartilho. Já o caso da imprensa, é um pouco mais delicado. Acredito que o Cimi leve em conta a mídia alternativa, livre e até aquela que abraça a causa indigenista. Como leitora desses veículos, sei que ele não chegam pra maioria da população. Ou alguem aí tem a ilusão que ‘Carta Capital’, ‘Forum’ e ‘Portal Cimi’ são mais lidos que a Folha de S. Paulo ou o Ego|Globo.com, ou até mesmo a Caras???? Ein??
(3) Realmente os numeros são bem expressivos. Mas em pouco mais de 500 anos, nós fomos responsáveis pela morte de indigenas e das florestas para atender nossas necessidades urbanoides e há muito tempo que números como esses são expostos – aprendi algo parecido na 7ª série e de nada mudou. Já deu pra ter uma noção de que eles não ajudam em muita coisa. Se não tocar no coração, não humaniza. Se não sangrar, não humaniza.

Eu não vou deixar de destacar a situação dos Guarani Kaiowá por conta de números. Os números são de ontem, antes de ontem e de amanhã. E eu estou preocupada com o hoje, o agora. Segundo a carta, eles fazem apenas uma refeição por dia. A média de pessoas que acessam o Facebook, Twitter ou leram a carta da CIMI já devem ter feito pelo menos duas refeições e beliscaram alguma coisa no dia de hoje. Também já beberam água mineral filtrada. E vão querer que eu me preocupe com números??? Não. Não agora, por favor.

Pessoalmente, admiro o povo Guarani Kaiowá. Admiro-os pela coragem, pela honestidade, pelo sangue derramado. Admiro-os porque submetem seu corpo e sua ancestralidade ao extermínio por não suportarem mais esse mundo desgovernado – esse mundo Brasil que tirou deles a terra, o sustento, o direito a vida, o canto e as rezas. Quantos de nós também não ‘perdemos’ diariamente a vida por estarmos presos a relacionamentos sem futuro, empregos sem amor, sonhos sem esperança??? Isso também é morte – morte da nossa essencia. De coração, o que os Kaiowá fizeram até aqui é um baita exemplo de que não podemos deixar morrer em nós a nossa cultura, nossa ligação com o superior e muito menos a nossa honra.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s