Jornalismo: uma construção coletiva



foto-Ivana-by-Gianne-Carvalho-FlatEdição da entrevista da jornalista e pesquisadora Ivana Bentes para o IHU Online. Usei a entrevista como base para destacar o pensamento dela a respeito dos caminhos para o jornalismo. Na visão da diretora da Escola de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) “o futuro do jornalismo é uma construção coletiva”.

Fonte: Flavio Gut [http://flaviogut.tumblr.com/]

Hoje em dia, vivemos um período que chamo de “pós-TV”. Uma boa parte das pessoas que ainda veem televisão, assistem por causa da internet. Eu, por exemplo, sou uma.  Chegam informações como: “Na televisão, Dilma está fazendo uma omelete na Ana Maria Braga”. Eu não assisto Ana Maria Braga, mas eu recebo isso no Twitter e, eventualmente, ligo a TV no programa para ver, por exemplo, o que Dilma vai falar de economia, de macroeconomia num programa como esse. E isso tudo por conta das redes sociais.

Ficou muito claro que as redes sociais estão dando uma sobrevida às mídias clássicas. Outro exemplo é a revolução no Egito. O Twitter avisa que as imagens estão passando na CNN, ou seja, você passa a consumir televisão a partir de uma informação que você recebe na rede social.

Então, nós temos que pensar, obviamente, na integração entre as mídias, na convergência. Temos que pensar quais são esses novos modos de se consumir as mídias tradicionais.E mais do que isso na perspectiva de sermos produtores de mídia. Na verdade, estou falando da mudança de hábitos de acesso às mídias tradicionais. Na formação, nós temos que pensar, exatamente esse momento especial, que coloca em xeque a corporação do jornalismo.

O jornalista hoje rivaliza com todo mundo que produz notícia. E, quando falo em todo mundo, é todo mundo mesmo. Cada um de nós, na sua rede, no seu microblog, no seu Facebook, tem uma produção relevante de notícias, de informação, de análise, de interpretação. E principalmente de expressão. Comunicar afetos.

O jornalismo em si vai ter que se reconfigurar e se readequar a essas questões do campo da comunicação que configuram o serviço corporativo.

A formação tem que ter em vista que o jornalista não vai trabalhar em uma grande mídia, mas que vai ter que inventar o próprio emprego, ou seja, que o jornalista precisa ter seu próprio blog, seu portal, suas redes de informação.

O novo jornalista precisa não apenas construir as fontes. Mas compartilhar e trabalhar de forma colaborativa em um novo ambiente não rival e colaborativo.

É preciso continuar tratando, na formação em jornalismo, de análise crítica, pensamento crítico, da formação geral em cultura, humanismo. Isso não muda, mas ao mesmo tempo há novos desafios éticos.

A demissão de mais dois jornalistas por causa de postagens no Twitter, pareceu-me absolutamente despropositada, uma confusão, justamente no momento em que você tem essa possibilidade de liberdade jornalística do que já foram considerados “segredos corporativos”. Por exemplo, os jornalistas foram demitidos porque comentaram que os obituários sobre o José Alencar estavam prontos há bastante tempo porque ele estava doente há anos. Ou seja, a morte dele era esperada. No entanto, a Folha de São Paulo custou muito para publicar o obituário do ex-vice-presidente. O fato de se explicitar que os obituários estão prontos há muito tempo chocou o núcleo da Folha, criou uma relação negativa, primeiro porque eles fizeram uma crítica interna ao jornal, que não poderiam revelar o segredo do procedimento.

Nós vivemos em uma sociedade de informação, em uma sociedade pós-WikiLeaks, justamente que vem eliminar a cultura do segredo. É muito discutível, e talvez uma insensibilidade em relação à nova ética no que se refere às relações que as corporações de comunicação vão ter, de agora em diante, com seus profissionais que têm acesso e que se expressam cotidianamente nas novas redes.

É extremamente exagerado, radical, improdutivo se proibir os jornalistas de utilizar as redes sociais para opiniões pessoais, de se expressarem ou fazerem uma crítica construtiva ao próprio jornal.

Essa ética, esse limite da exposição dos procedimentos do jornalismo terá que mudar. As corporações midiáticas acham que ninguém sabe que os obituários estão prontos, mas se não sabem deveriam saber. Quanto mais o leitor e o espectador tiverem o domínio dos procedimentos de uma redação de jornal e de televisão, mais ele estará qualificado, inclusive para fazer sua própria mídia.

Pois todo mundo hoje é um virtual midialivrista.

Parece que ainda há um descompasso das próprias corporações – que não estão acostumadas a ver expostos os seus procedimentos internos de uma redação. E isso, com as redes sociais, é explicitado. As pessoas comentam, as informações vazam, criticam, fazem uma nova comunicação.

A cultura do segredo corporativo é impossível de ser mantida no ambiente das redes sociais. E isso não é ruim, isso é bom, isso é transparência, é a livre circulação do conhecimento sobre todos os procedimentos.

Hoje em dia, com a cultura de rede, mais pessoas se informam sobre procedimentos médicos, de segurança, porque se informam mais sobre os procedimentos relacionados. Pesquisam, comparam. Isso é muito bom, isso é muito democrático. Essas questões são éticas, questões que devem estar em discussão para uma nova formação para essas redes. E quando eu digo novas, não estou falando de manual de redação: estou falando de mudanças da mentalidade que regem os conflitos.

A imprensa trabalha com a denúncia, com o denuncismo, com a revelação de informações da vida pessoal pública. Por isso, a própria mídia, o próprio jornalismo tem que ser igualmente transparentes. Tem que estar sendo o tempo todo analisados, desconstruídos, comentados.

Eu brinco que hoje o jornalismo cultural está no Google. O jornalismo cultural mais interessante está na pesquisa que se faz nas redes por pessoas que têm uma afinidade com seu pensamento e lhe informam sobre os assuntos nos quais elas são “especialistas” ou interessadas. Portanto, para mim, quem faz o jornalismo cultural importante, hoje, está nas redes sociais.

São pessoas, não são corporações, que nos ajudam a criar o repertório de música, de cinema, de livros… Hoje, começamos a superar, em termos de credibilidade e velocidade, a informação que a pessoa antes recebia pelo jornal.

Hoje, às, vezes, as pessoas recebem essa informação do próprio produtor de cultura, ou seja, é o diretor do filme que manda a informação, é o produtor da peça… Claro, que acessamos também muitas coisas que não nos interessam, mas aos poucos aprendemos a selecionar e a informação fica cada vez mais plural, em diferentes línguas, de diferentes espaços (sejam portais, blogs, Twitter).

Mas é até engraçado: eu vou ler o jornal depois que alguém me chama a atenção sobre alguma matéria, depois que alguém diz que há, por exemplo, aí uma matéria com a Ministra da Cultura sobre a reforma do direito autoral.

Então, vou lá e busco no jornal impresso ou na internet. Mas onde recebo a informação é nas redes sociais.

Isso é uma inversão, pois eu vou ver televisão porque alguém me diz “ao vivo na CNN tem imagens sobre o terremoto no Japão”. Leio cada vez menos o jornal impresso, porque as informações que lá se encontram já chegaram antes na rede.

O que está em jogo é o corporativismo clássico.

Imagine um repórter-cinegrafista não poder escrever ou não poder aparecer como apresentador. Isso foi criado por uma contingência histórica de reserva de mercados especialista. Isso é muito fordista, pensar que o cinegrafista só entende de câmeras.

Com a emergência desse amador-profissional, das pessoas que são capazes de colocar um programa no ar a partir do seu quarto ou do meio da rua, vamos ver que não faz sentido essa especialização limitada.

A tendência é justamente encontrar esse profissional que é capaz de lidar com todas as linguagens.

Na verdade, é uma formação ainda mais exigente. A formação não é mais frouxa, ela exige o domínio de diferentes linguagens, exige uma formação mais ampla.

O futuro do jornalismo tem que se construído a partir dessa atual mudança de mentalidade em relação às corporações e ao tipo de democracia que nós queremos.

O futuro do jornalismo é uma construção coletiva.

Nós temos que apontar e lutar para criar e construir esse novo campo. A intelectualidade de massas é o futuro.

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