Essência roubada


“Olha pra trás. Tá vendo esse casal de velhinhos? Pois é. Eles tinham uma casa e venderam pra Alcoa por 20 mil. Os filhos gastaram todo o dinheiro e hoje eles ficam andando pela rua porque não tem onde morar. Acho até que ainda nem almoçaram”.

O dialogo acima aconteceu num restaurante em Juruti-PA ontem. As informações foram lançadas sobre minha cabeça como um nocaute que derruba o adversario numa luta. Senti culpa. Raiva e uma imensa vontade de meter o dedo na cara do capitalismo e dizer pra ele parar de ferrar com a vida das pessoas. Só nisso eu conseguia pensar. Ainda sinto um nó na garganta quando lembro dessa situação. Pergunto: Até quando as pessoas vão pagar com suas vidas pra que outras possam comprar uma tal felicidade em algum shopping qualquer do mundo?

Quantas familias venderam suas casas na zona rural e vieram pra cidade sem nenhuma estrutura psicologica e social pra sobreviver no meio de tanto asfalto e ganancia? Se eu, que nasci e me criei na cidade, as vezes quase me desespero com a situação que está o mundo. Imagine essas pessoas, acostumadas a plantar e colher o suficiente para a subsistencia e agora precisam trabalham pra pagar conta de energia eletrica, impostos, comprar uma geladeira, trancas para as portas e ainda colocar os filhos na escola pra ‘ser gente’.

Sabe o que a rua faz? Rouba a essencia de ser humano. Muitas pessoas vitimas desse capitalismo desgovernado e ‘governado’ pelas grandes potencias mundiais cruzam o nosso caminho todos os dias. Mas não são vistas. São ignoradas.

Voltando a cena do restaurante. Assim que os velhinhos entraram no restaurante os funcionarios se juntaram todos num canto do lugar e igoraram a chegada do casal. Eles ficaram por ali e se aproximaram da nossa mesa, a unica ainda ocupada. A velha, magra e com um sorriso facil, cumprimentou com um aperto de mão cada um que estava ali. Quando perguntado se queria almoçar respondeu que não. Estava ruim do estomago – provavelmente fome. Sorriu e voltou pra companhia do velho. Os dois sairam juntos e antes de ganharem a rua, o velho olhou pra nossa mesa e acenou. – “Tchau. Tudo de bom pra vocês”.

Pensei em voltar pra casa. Toda essa idéia de amadurecimento as vezes é como punhal enfiado no peito e que sai cortando tudo por dentro. Deixando marcas que o tempo nem sempre apaga. Não sei se o mais facil é fingir que as coisas não me atingem e viver um mundo de mentiras, como muitos por ai. Ou se o melhor é continuar encarando o mundo como ele é: com suas vitimas, dores, amores e crescimento. Quando é que isso vai mudar? Até quando o dinheiro  vai ser mais importante que as pessoas? As empresas se apropriaram da mentira pra mostrar uma realidade que não existe e vendem a imagem de uma sustentabilidade baseada em dicionario e não em prática. Nos enfiam goela abaixo uma publicidade mesquinha como se realmente fossemos importante pra empresa X ou Y. Mentira. O que importa é o saldo da nossa conta bancária. E nada mais que isso.

Abaixo o peso da irresponsabilidade.

Mas um dia eu vou olhar pro capitalismo e dizer: Você perdeu. Mostro! Porque eu sei que existem mais pessoas no mundo que empresas.

3 comentários sobre “Essência roubada

  1. danielnunes disse:

    Resumiu tudo que eu na minha humilde ignorancia de falso sabedor da vida. Aqui está a prova de que “ter, não é saber”!!!.

  2. AritanAguiar disse:

    É um boa reflexão,e um tapa na realidade que não podemos fugir.
    Durante 10 anos engolimos a Cargill sem EIA/RIMA, será que agora terá justiça? Isso depende de nós.

  3. Jota Ninos disse:

    Bem-vinda ao capitalismo!

    Mas passando essa fase meio romântica da desilusão, seu amadurecimento servirá para mostrar as garras do teu profissionalismo como jornalista, usando uma das ferramentas para, se não acabar, pelo menos diminuir os efeitos destrutivos desse capitalismo.

    A verdade, apresentada de forma responsável, pode ser o canal para derrubar as mentiras por trás dos muros da insensatez capital. Vivi isso com tua idade. Fui ao outro lado do mundo achando que o capitalismo daqui era pior que o de lá. Doce ilusão!

    Mas aprendi que é preciso, mas que nunca navegar. Há sempre uma festa que acaba e outra que começa, como bem disse Chico Buarque quando fez a belíssima composição sobre o sonho socialista português, na malfadada Revolução dos Cravos, de 1975.

    Te dou as letras(*) de presente (busque a música e verá que linda é) para embalares teu sonhos e não deixar de navegar, pois há tanto mar a nos separar do sonho…

    (*) Chico fez uma versão, censurada pela ditadura brasileira, sobre a Revolução dos Cravos. Depois que ela acabou, a música foi liberada e já não fazia nexo. E ele, do alto de sua genialidade, aproveitou a música e fez nova letra deixando uma mensagem de esperança ainda maior…

    Tanto Mar (1ª Versão)

    Sei que está em festa, pá
    Fico contente
    E enquanto estou ausente
    Guarda um cravo para mim

    Eu queria estar na festa, pá
    Com a tua gente
    E colher pessoalmente
    Uma flor no teu jardim

    Sei que há léguas a nos separar
    Tanto mar, tanto mar
    Sei, também, que é preciso, pá
    Navegar, navegar

    Lá faz primavera, pá
    Cá estou doente
    Manda urgentemente
    Algum cheirinho de alecrim

    Tanto Mar (2ª Versão)

    Foi bonita a festa, pá
    Fiquei contente
    Ainda guardo renitente
    Um velho cravo para mim

    Já murcharam tua festa, pá
    Mas certamente
    Esqueceram uma semente
    Nalgum canto de jardim

    Sei que há léguas a nos separar
    Tanto mar, tanto mar
    Sei, também, quanto é preciso, pá
    Navegar, navegar

    Canta primavera, pá
    Cá estou carente
    Manda novamente
    Algum cheirinho de alecrim

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