24 anos e nenhum ‘eu te amo’


Não quero com essas palavrinhas ofender meus amigos casados, noivos ou enamorados. Nada disso. Quero dizer que estou feliz. Feliz por ter um coração livre pra aprender o que é o amor e, acima de tudo, para amar.

Muitas vezes, e bote muitas nisso, me vi como uma pessoa que ia envelhecer sem viver um grande amor. Até o dia em que me vi olhando uma daquelas fotos com o casal de mãos dadas, olhar fixo um no outro e um por do sol de encher os olhos, com a legenda ‘um casal amigo’. Como quem é involuntariamente levado pelas mãos pra um lugar ainda desconhecido, me vi ali, na foto. Pensei: eu quero viver isso.

Essa coisa toda de amor/casal ainda soa um pouco inconveniente aos meus ouvidos. Tanto tempo sem acreditar no tal sentimento que faz a pessoa acordar com o brilho no olhar, foi aos poucos ‘gelando’ qualquer possibilidade de vive-lo aqui dentro. Ouvir um ‘amo você’ era um convite pra reviver meus tempos de solteira. E eles sempre vinham. Alguns acompanhados de alguma verdade, outros nem tanto. Mas eles sempre vinham. Deixei de acreditar quando percebi que essas duas palavrinhas saiam facilmente dos labios próximos a mim. Também cheguei a conclusão que nunca disse um ‘eu te amo’. Caramba. Isso é até estranho. 24 anos e nenhum ‘eu te amo’. Talvez nunca tenha amado mesmo. Ou amei os caras errados. Ou nem saiba ainda o que é ‘eu te amo’.

Cheguei a conclusão que nem todos sabem o que é o desconhecido ‘amor’. Nem uma consulta ao dicionario é capaz de aliviar o impacto que a palavra ainda causa aos meus ouvidos. Acredito que o amor não vem embalado pra presente e nem se compra nos supermercados. Acredito também que as quatro letrinhas juntas são capazes de nos libertar do medo de ser feliz, faz da simplicidade um ingrediente da felicidade e faz ressurgir das cinzas os sonhos de criança que ficaram guardados atras do tal amadurecimento proprio dos adultos. Alias, acredito que só as crianças sabem mesmo o que é o amor. Nós, gente grande, deixamos de lado os nossos sonhos e ‘compramos’ o sonho dos outros. Damos atenção demasiada aos que os outros vão pensar, aos que vão dizer, a ler jornais com noticias tragicas, a bolsa de valores e aos itens da moda: modas, carros, girias, hits e a cor dos nossos cabelos. Querem nos tornar incapazes de escolher a marca da nossa escova de dentes, tamanha é a publicidade que invade aos nossas casas, emails e panfletos de supermercados.

– O que vão pensar de mim? Nunca ouvi das crianças tal asneira. Pelo contrario. Elas estão tão ocupadas em brincar debaixo das arvores e se entregar pra algumas gargalhadas que perdem sempre a hora pra voltar pra casa – deixando os adultos preocupados. Normal. Faz tanto tempo que eles deixaram de ser crianças que não lembram mais o quanto é bom viver apenas com a certeza de que ainda temos tempo pra brincar, sorrir e tomar banho de chuva.

Os homens investem tanto dinheiro e tempo querendo ‘voltar’ a lua, a clonar o homem e ao retardar a velhice, que chegam ao estopim da insensibilidade. Eles deveriam gastar energia em descobrir como retardar o fim da infancia ou mesmo a descobrir uma vacina capaz de nos fazer voltar a acreditar nos nossos sonhos de criança. Tempo em que as ruas do bairro nos bastavam, que o carinho realmente era sincero, que os doces não faziam mal pro coração e que subir numa arvore fazia de nós quase um super heroi. Mas não. Eles não tem tempo pra isso. Afinal de contas, quem liga pra sonhos de criança?

Confesso que nunca esteve nos meus planos [infantis]comprar um carro, uma geladeira ou abrir uma conta no banco. Sonhava em viajar, aprender a ler e a nadar. Achava que se fosse capaz de fazer essas tres coisas ia ser feliz. Aprendi a ler e a nadar. Viajei. Depois, por  ordem natural das coisas, meus planos mudaram. Mesmo sabendo ler e nadar, tive que terminar o colegio e ser uma, entre poucos, a cursar uma faculdade e arrumar um trabalho. Lá, entre quatro paredes e outros quase diplomados, fui ocupando o espaço que me restava com os sonhos pra aquilo que chamamos de necessidade: comprar um carro, uma geladeira e abrir uma conta no banco. Confesso que ainda não tirei a habilitação por pura falta de dinheiro, aquela caixa branca nunca me chamou a atenção e somente a conta no banco foi obrigatoria.  Pensei até em mudar de emprego e arranjar novas companhias. Mas percebi que alguem que mede um pouco mais de 1m50cm vai sempre pensar em contas de banco, geladeira e carros. Tomar banho de chuva está fora de questão, nadar no rio é coisa de moleque e subir em arvores é pra quem não tem o que fazer. Como é insensivel o mundo dos adultos.

Mesmo assim revolvi arriscar. Nada tinha a perder, já que o tempo me tirou as peripecias de criança, me deixando apenas lembranças e saudade. E é nessa busca pela pureza da infância que vi o quanto ainda cabe de felicidade em mim. Alias, joguei fora alguns sentimentos velhos e agora tá sobrando espaço pra felicidade.

 

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