[2ª parte] Depois da Serra


A distancia impedia o padre de chegar até a comunidade e dava coragem suficiente pra uma senhora de cabelos brancos subir no pequeno altar de madeira e começar a falar de Deus. Enquanto o sol entrava as frestas da parede e iluminava a face envelhecida e castigada pelo mesmo sol que era obrigada a enfrentar todos os dias enquanto ajudava o marido na roça, ela falava de esperança.

E foi sentada com as pernas balançando que aprendi a simplicidade de Deus. Nada de querubins banhados de ouro ostentados em tetos que cobrem apenas a cabeça dos mais afortunados não. Foi ali entre as frestas da madeira, o chão de terra batida, velhas balançando os braços pra lá e pra cá com cantos que meus ouvidos infantis quase nunca assimilava que pude compreender a essência de Deus: a simplicidade.

O melhor ainda estava por vir: bingo. Depois da missa as velhas se aninhavam num canto da pequena igrejinha levantada com o suor e dedicação dos próprios comunitários para marcar os números do bingo que ia fazer uma delas levar pra casa os mais humildes prêmios que eu já vi serem sorteados: um pacote de bolacha água e sal, uma caixa de chocolate ‘Garoto’ ou um litro de querosene.

O bingo acaba e voltávamos pra casa. Era domingo e o dia sempre teimava em passar rápido. Não podíamos perder tempo.

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