[1ª parte] Depois da Serra


Eu sempre me perguntei o que existia atrás da serra que era cortada pela BR-163 na altura da casa dos meus avós a 100km de Santarém. Ficava impressionada com o fluxo de carros que vinham do lugar que eu ainda desconhecia. As vezes arriscava andar um pouco descalça pela estrada de solo avermelhado com a intenção de que ia me deparar a qualquer momento com prédios enormes, gentes de roupa colorida e um mundo diferente – uma nova civilização, quem sabe. Mas nada disso acontecia.

Numa tarde qualquer, enquanto o velho avô nos ensinava como era preparar a farinha de mandioca, um negro atravessou o nosso caminho e pediu ‘pousada’. Meu avô ofereceu hospedagem e o negro trabalho. Era o primeiro andarilho que eu via na minha frente. Trazia apenas alguns farrapos de roupa dentro de um saco plastico, um olhar cansado e uma barriga faminta. Sentamos a mesa. O estranho falava pouco. Muito pouco. Atiçando a curiosidade das crianças e o olhar atento dos velhos. Dividimos a mesma mesa, mas não o mesmo teto.

Enquanto nos agasalhavamos pra dormir no interior da casa de madeira e chão batido, meu avô oferecia ao negro andarilho uma rede. Ele pegou e armou ali, na espreita da varanda, ao lado do velho radinho de pilha que meu avô carregava pra todo canto que fosse. Durante toda a noite o negro compartilhou dos ruidos dos cachorros e das garibas que pareciam querer se exibir diante do ilustre e calado desconhecido.  Naquela época ainda fazia muito frio e meu avô fechou a pouta dizendo: cuidado com a cruviana.

Ele sempre usou desse recurso pra fazer os netos pousarem mais cedo e deixar ele sossegado ouvindo o radinho de pilha que vez ou outra queria falhar. Ele batia nervoso a pequena caixa fonada e logo a voz do outro lado voltada a conversar com o velho. Eram longas as noites em que sentavamos ao seu lado pra que nos contasse as peripecias aprontada pelos filhos (pais e tios) na juventude. Aquelas informações poderiam e foram muito uteis na adolescencia – um investimento a longo prazo.

Mas naquela noite quem ficou com o radinho foi o negro andarilho. Foi sua unica companhia.

[continua]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s