A boa e velha solidariedade


A boleia do caminhão sempre lotada e ainda faltavam entrar as três crianças e a mulher. Toda vez que meu pai resolvia cruzar a BR-163 era assim: os tres filhos e a mulher se apertavam ao lado de tantos caroneiros ainda desconhecidos.

Quem não acordava as 4h da manhã para pegar o ônibus tinha que se aventurar na beira da estrada e esperar que ‘algum filho de Deus’ cruzasse a floresta em busca das luzes e o asfalto da cidade. Como quase todas as férias eram ali na altura do km 100 da Santarém-Cuiabá, presenciei muitas dessas cenas. Foi então que aprendi duas coisas: a solidariedade e que moedinhas (naquela época era o cruzeiro) tem o seu valor.

Como a boleia do caminhão estava sempre cheia, eu me expremia entre a porta do motorista e o meu pai em quase todas as viagens. Ali, próximo ao volante, eu me sentia um pouco mais segura e podia sentir o vento mais proximo do meu rosto. Meus irmãos não deixam eu sentar próximo a  outra janela – ser a filha caçula tem suas desvantagens. Toda vez que um caroneiro ia descer agradecia com o sorriso e esticava aos mãos com algumas moedinhas. Meu pai se recusava a recebê-las e eles insistentemente entregavam para a pequena tesoureira da viagem – eu. Guardava uma a uma. Até comprei duas ou três bonecas.

Famílias inteiras viajavam com a gente. Pai, mãe e filhos. Alguns chegavam a carregar até 10 sacos de farinha, arroz e feijão. Aquele era o dia em que iam vendar a produção de um ano inteiro de trabalho. Na volta traziam pão, manteiga e óleo de cozinha. Alguns litros de gasolina pro candieiro e pilhas pro rádio AM.

caronaFoto: O Percurso

Nos dias de hoje

Quando a gente cresce ensinam logo que não devemos conversar e nem pegar carona com pessoas estranhas. Mas hoje em dia muita gente tem feito o caminho inverso e usado a carona como uma alternativa de economizar dinheiro e ainda cuidar do meio ambiente. Novos aventureiros passam a adotar a carona para ir ao trabalho, a escola e até para viajar.  Passeando pela internet encontrei a história do Jefferson Jess, jornalista, que vem fazendo da carona um modo de conhecer o Brasil e de, principalmente, despertar nas pessoas a pratica da solidariedade nas estradas. Num país com tantas diversidades culturais e um povo cheio de história para contar, a carona pode ser uma boa ‘velha’ maneira de fazer amigos.

Apesar de já viver um pouco de carona por aí, ainda estou me preparando tal feito numa viagem ainda mais longa, de preferência pela BR-163. O Jefferson já me deu algumas dicas e outras colhi no blog dele, o Expedição Carona Interativa.

Outra experiência bacana é a do jornalista Laércio Guido que viaja o Brasil com uma mochila nas costas de carona e contado um pouco dos lugares que visita através do blog Brasil – Cada canto um encanto. Uma forma interessante de conhecer melhor as belezas e histórias guardadas pela distancia,  geografia e pelo tempo. O texto do Laércio é muito bom – o que garante a companhia na hora da leitura.

Outro que deixou as coisas um pouco de lado e saiu em busca de se conhecer – porque essa pode ser uma das razões que mais impulsiona alguém a pegar a a estrada – foi o Renan de Minas Gerais. “A priori, foi um mês que tirei pra mim. Para viajar por viajar. Sem luxos. As vezes com um dinheiro a mais, as vezes sem dinheiro algum. Indo para o onde o vento me levasse, ficando o tempo que cada lugar pedia. Pode ser piegas, mas boa parte de tudo isso foi para refletir mesmo. E assim me conhecer.” No blog Café com Viagem tem mais histórias interessantes. Recomendo a leitura do post Coliseu, Kombi e Tierra del fuego. (Até eu quis comprar uma Kombi)

Ja pegou carona? Então compartilha e vamos juntos fortalecer essa rede de solidariedade em prol de um Brasil mais humano e menos poluído.

Inté.

2 comentários sobre “A boa e velha solidariedade

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