2ª Parte: Viver por aqui


Série Cabeça da Onça

Aceitamos o convite. Depois de ouvir o barulho do gerador de luz que intensionalmente informava que ia começar o Jornal Nacional, Seu Amaral – filho do Seu Bertino, e dono da casa que eu ia ficar até o domingo, chamou mulher e filhas. Era hora de desafiar a noite e o caminho que fica na beira do rio até a casa do Seu Bertino e Dona Lucinda. Casados há exatos 52 anos os dois mantem o sorriso no rosto e não poupam esforços para agradar a pessoa estranha no ninho dos Amaral. A comunidade é formada por pequenas ilhas onde chegam a morar até três famílias. É o Rio Amazonas que define o tamanho do terrenos. Quando rio enche o quintal diminiu. Quando seca a areia branquinha torna a aparecer e praias se formam na frente das casas de madeira e cobertas de palha.

No quarto do casal as duas familias assistem juntas a TV. A parede de madeira é coberta de fotos das epocas mais remotas de uma juventude que Seu Bertino deixou pra trás há muito tempo. Provavelmente uma juventude da materia e não do espírito. Já outras fotos revelam a infância dos 12 filhos hoje ‘formados’ que orgulhosamente Seu Bertino faz questão de salientar enquanto conta a dificuldade que foi educar ‘os meninos’. Dificuldades porque são de uma época em que não existiam tantas escolas e o acesso a cidade era muito mais complicado. Hoje o onibus escolar vem buscar o aluno na comunidade e deixar depois da aula. A janta estava pronta.

Peixe, caldo e farinha. Essa foi a refeição daquela noite de sexta-feira. A família se aproximou. Todos se sentaram e eu fiquei ao lado do Seu Bertino. Ele, claro, fez muitas perguntas. Perguntou se eu sabia rezar. Respondi que sim e ele, como bom crente que é, pediu pra fazer a oração em agradecimento pelo alimento que eu vi preparar. Agradeci. Ele sorriu com o ar de que ‘eu estava no caminho certo’. Por menor que pudesse ser aquele momento, ele tinha algo proprio da vida numa comunidade longe das luzes das cidades grandes e do asfalto: a simplicidade do ser e existir. Seu Bertino era a própria vida disso.

Com 81 anos de idade e 52 ao lado da mulher que ele só viu uma vez antes de pedir em casamento, Seu Bertino faz parte da parcela da população que vive dignamente a vida. Conhece de tudo um pouco e um pouco de tudo. Num dedo de prosa distribuiu saberes sobre a existencia dos dinossauros, a criação divina do homem e sobre matemática. Ria enquanto contava as proezas de menino que passava a tarde decorando a tabuada pra não ser surpreendido com a palmatoria na manhã seguinte na escola – que ele tem orgulho em dizer que frequentou. Ele ria também com os olhos que carregavam um ar já cansado, mas nunca triste.

Passou as horas a me questionar sobre as coisas da vida e de um passado que eu só conheço dos livros de história. Vez em quando olhava fixo nos meus olhos e dizia ser um cientista. Em alguns momentos, entre as lições que recebia daquele velho conhecedor da vida, ouvia ele me chamar de professora, cientista ou doutora. Disse que eu tambem precisa ser uma cientista da vida.

A distância entre os dois mundos tão diferentes foram diminuindo a cada nova lição, conselho e história a medida que se passavam as horas e o dia.

continua

Leia a 1ª parte: Travessia do rio e aguarde as proximas.

4 comentários sobre “2ª Parte: Viver por aqui

  1. Tânia Amazonas disse:

    O texto e as fotos me levaram aos tempos de criança e adolescente quando viajava com meu Pai, Estácio Amazonas pelas várzeas e rios, especialmente a comunidade de Água Preta em Santarém, lugar onde ele nasceu e onde me encantei pelas águas

  2. Aline Tavares disse:

    Texto belíssimo, principalmente por sua essência…
    Seria a beirada do rio a te fazer voltar de onde tu veio???
    Rsrsrsrsss… parabnss amiga!

  3. Luciana disse:

    Ele é meu pai, é pessoa mais transparente, mais pacifica, mais amorosa que eu conheço.Tenho a honra se ser filha desse homem com esse carater inigualável. Te amo muito Pai.

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