Desafios na hora de cuidar


Art. 132 “Em cada Município haverá, no mínimo, um Conselho Tutelar composto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local para mandato de três anos, permitida uma recondução.”

Falta de estrutura, carros velhos, longas distâncias e pouco pessoal são as desculpas mas utilizadas na hora de justificar as dificuldades de atendimento dos muitos pontos do Conselho Tutelar espalhados pelo Brasil. Na Região Norte e principalmente no Pará essas causas são apontadas quase com unanimidade pelos conselheiros quando questionados sobre os atendimentos (ou a ausência deles) junto as famílias das crianças e adolescentes atendidas pelo Conselho Tutelar.

As causas não se resumem aí

A falta de preparo dos conselheiros para tratar com assuntos tão delicados como a violência doméstica, sexual, abandono do lar, descaso e suas outras competências é comum na maioria dos casos. Identifiquei essa situação desde que busquei conhecer melhor o trabalho desenvolvido pelo orgão – já que ele é citado no meu TCC ‘A criança e o adolescente na pauta da violência’.

Além da pesquisa que deu fruto ao trabalho academico produzi junto com outras duas colegas de faculdade a Revista Margarida, filho mais velho do TCC. Convidei alguns órgãos que trabalham com o tema infância e adolescencia para ouvir a defesa do TCC e ainda conhecer a revista de perto. O Conselho Tutelar foi convidado e não compareceu – o coordenador devia está muito ocupado. Eles sempre estão muito ocupados.

BR-163

Alguns dias depois comecei a produzir uma pauta sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes nas cidades que ficam ao longo da BR-163, de Santarém até Cuiabá. Meu contato era por telefone e alguns por e-mail. As dificuldades apontadas pelos conselheiros eram sempre as mesmas: distância, falta de estrutura para chegara até as cidades menores sem atendimento do Conselho e pessoal insuficiente. Tive dificuldades de falar com muitas cidades e quando dizia que estava fazendo um levantamento de informações sobre os casos de violência para um reportagens começava a burocracia de falar com o ciclano e se ele aprovar, iriam repassar os dados. Alguns ficavam de ligar depois e não retornavam. Eu dava uma de João sem braço e fazia questão de ligar novamente pra ouvir nem que fosse um ‘não podemos repassar a informação’. Não desisti. O mais importante eu já tinha em mãos: o contato e endereço onde funcionam os orgãos. Outros conselheiros entendiam a importancia do trabalho e repassavam algumas informações, mesmo lamentando as dificuldades impostas pelas longas distâncias.

Juruti

Agora o que impulsionou mesmo esse post foi o derradeiro acontecimento. Passo todo dia na frente do Conselho Tutelar de Juruti quando vou pro trabalho. Uma vez parei pra entregar um informativo da Rede e outra um convite. Mas sempre tive vontade de encostar, conversar um pouco e falar sobre a minha pesquisa, já que avaliei uma reportagens que cita o oŕgão daqui. Até que na sexta-feira (19) resolvi fazer isso. Claro que o horário (meio-dia) não era favoravel pra nenhuma das partes. Mas entrei assim mesmo.

Logo na entrada uma mesa com cadeira e ao lado um TV ligada e outras cadeiras plásticas encostadas na parede: nada acolhedor. Bati palma e esperei alguém me atender. De onde eu estava puder ter uma visão de um aglomerado de pessoas no derradeiro cômodo da casa no final do corredor– talvez ali funcionasse a cozinha. Um mulher me olhou intrigada – talvez pensasse o que alguem podia querer ali naquela hora, onde as pessoas normais almoçam e outras descansam. Não veio ao meu encontro.

Me voltei pra televisão. Ia passar no Jornal Hoje uma reportagem que me interessava. A cobertura sobre a prisão do jovem que matou Glauco era exaustiva e demorou mais de três minutos. E ninguém tinha se aproximado ao menos pra saber o que eu fazia ali. Ainda bem que não sou nenhuma mãe aflita em busca de auxilio ou uma criança abandona pelos pais – porque se fosse ia ter de esperar o fim da conversar ali no ultimo comodo. Acabou a reportagem e eu me voltei novamente para o publico no final do corredor. Ninguém sequer se ocupou em saber quem eu era. Bati palma de novo. Me olharam e não se mexeram.

Avaliei as razões que fariam conselheiros tutelares ignorarem um pedido de atenção. Não encontrei nada. Estava bem vestida e sinalizada está em meu estado normal de sanidade. Talvez isso não inspirasse um atendimento imediato. Bati palma novamente e soltei a pergunta: ‘Que horas é o atendimento ao publico? Porque eu posso voltar mais tarde se for o caso?’. A pergunta, lógico, saiu seca e quase rasgando a minha garganta. Como que por impulso, a mesma mulher que me olhou pela primeira vez, levantou e caminhou em minha direção. Sentou na cadeira atras da mesa, me olhou e me perguntou o que eu queria. Respondi que era uma informação. Perguntei. Ela disse que não sabia de nada – como eu já imaginava. Me voltei pra ela e pedi, com o mesmo tom seco, desculpas pelo horario. Sai dali sem nenhuma esperança de receber a tal informação.

Pensei em quantas pessoas, pais, crianças e adolescentes, devem sair dali com a mesma sensação.

Serviço

Se na sua cidade funciona o Conselho Tutelar recomendo a leitura de uma pesquisa que mapeia as condições de funcionamento dos CTs no Brasil. Caso não tenha, a leitura continua sendo recomendada pra que a sociedade saiba como requerer a criação do orgão.

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