1ª Parte: Travessia do rio


Série Cabeça da Onça

Deixamos a Juruti do asfalto, trânsito e carros volante pela Juruti que ainda segue o ritmo da água mansa do Rio Amazonas e sem energia elétrica. A viagem de rabeta (canoa de mais de seis metros feita de madeira e com motor) é lenta e não deixa escapar nenhum detalhe da vida que fica as margens do rio. A janta dessa noite foi comprada ali mesmo, na frente da cidade e sem grandes negociações. Cada peixe custava um real. Compramos oito.

Na rabeta, três experientes viajantes, uma saca de gelo pra conservar a alimentação dos proximos dias, um pacote de refrigetante, oito peixes ainda vivos boiando numa poça de água no fundo da rabeta e eu. No percurso, que durou mais de 40 minutos, fomos acompanhados por outros pequenos barquinhos e botos que subiam e desciam como de proposito na frente da câmera fotográfica – pena que eles são rapidos demais. O horário foi propicio para documentar ‘o por do sol’. Veja as fotos no flickr.

Aos poucos o por do sol vai dando lugar a noite e ao frio. As outras pessoas dentro da rabeta já conhecem bem o percurso – tudo só é novo na minha vida. Seu Bertino com seus oitenta e um anos vai na proa (parte da frente) da rabeta. Chapéu branco que ele usa em todas as viagens e um óculos especial – a iluminação lhe dói a vista. É ele quem aponta o caminho a ser seguido pelo condutor. Sem usar as palavras, apenas levanta o braço direito e aponta o norte. O condutor, Renato – filho adotivo, obedece sempre com um sorriso no rosto e também sem palavras. Vez enquando o velho olhava pra tras e dizia ‘então a doutora é jornalista’. E voltava-se pra frente. Olhava pra trás novamente e tornava a perguntar de onde eu era. Quis também saber se jornalista ganha bem. Respondi que não. Mas que a vida de jornalista proporciona momentos especiais – como o que estavamos vivendo ali. Com jeito de quem ficou insatisfeito com a resposta, se voltou pra frente. Depois perguntou se eu já tinha tomado a vicina contra aquela gripe (H1N1). Disse que ela doi muito e que é igual a outras doenças que só dá uma vez na pessoa. O assunto foi abordado até a derradeira evidencia com o apoio da neta do Seu Bertino, Ruth, e novamente o silencio tomou conta da rabeta que mansamente dividia o rio Amazonas em dois.

De dentro da rabeta, essencia do Seu Bertino desafiava a estrutura de ferro enficada dentro do rio formando o porto da mineradora Alcoa há menos de 10 minutos da cidade. O velho olhar, agora incredulo, vagava lentamente pela ferragem até que alcançou novamente o rio. O restinho de cidade e grandes investimentos foram ficando pra trás e dando lugar paras ilhas que abrigam uma ou duas casas que se confundem com um pouco de floresta baixa, bois, cavalos e por do sol. Alguns minutos depois só dá pra ver água e floresta. Vez em quando outras rabetas ou canoas a remo atravessam o caminho. A buzina dos carros aqui é substituida por um aceno de mão simpatico acompanhado do “tudo bem cumpadi?”. A viagem continua.

Passamos a contemplar a noite. A lua já na imensidão do céu acompanhada de um unica estrela compõe o cenario. Agora eramos nós e as estrelas. Durante alguns momentos eu me perdi naquela imensidão. Seu Bertino também. Como bom crente à Deus que é, ele ficou durante longos períodos, sozinho com a aquela beleza. Voltamos. Já era hora de descer.

-Até. Vá lá em casa jantar o peixe.

Chegamos. Ia ficar ali por mais dois dias.

continua.

Acompanhe durante essa semana novas publicações sobre a experiência de viver numa comunidade que fica nas margens do Rio Amazonas.

2ª Parte: Viver por aqui

3ª Parte: O banho de rio

4ª Parte: A soltura de quelônios

5ª Parte: De volta pra casa

5 comentários sobre “1ª Parte: Travessia do rio

  1. Flávia Abtibol disse:

    Eeeita pau! Coisa boa ler (e imaginar) tudo isso. Coisa boa também, saber que aos poucos a tendência de achar que a Amazônia é um lugar como outro qualquer está cada vez mais sendo ignorada. O povo se condicionou a achar que ser ‘globalizado’ é deixar suas raízes, é parar de se impressionar com a perfeição que a natureza expõe aqui, é achar que o bom é ser igual a todo mundo, quando o bom mesmo é ser quem a gente é, mesmo que as nossas particularidades sejam vistas como ‘atraso’por aqueles que não sabem quem são. Muito bom ver que contigo (Ju!) não tem esse papo de vista cansada (lembra?). O Hunter Thompson ficaria orgulhoso😉 assim como eu😉

    Beijos
    F. Abtibol

  2. ANDRE OLIVEIRA disse:

    Bom dia Juliana.

    Excelente matéria. Infelizmente as coisas funcionam desta maneira. Mas não desista, continue lutando. Em algum momento alguém vai reconhecer seu excelente trabalho.

    Abraços,

    ANDRÉ OLIVEIRA
    BIÓLOGO / CEPTAR

  3. amaral disse:

    oi amaral de manaus filho de grande homem exemplo de integridade, com muito orgulho, muito legal sua matéria gostei muito.

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