Quase nunca


A vida pode ser boa em qualquer idade, e ter conseguido superar as tristezas que a vida me trouxe faz bem à minha alma. Não que elas tenham sido esquecidas, mas a maturidade me fez ver que elas fazem parte da vida e que a vida merece ser vivida como se morde uma manga, com dizia meu avô*. Hoje me dou quase todos os direitos, até porque o tempo agora é mais curto, e não devo desperdiçá-lo com nada que não valha a pena. Meus amigos são em menor número, mas mais bem escolhidos; tenho muito prazer em ficar sozinha e não preciso fazer concessões.

Houve um tempo em que era moda dizer: “só me arrependo das coisas que não fiz”. Esse arrependimento eu não tenho. Olhando para trás, fiz rigorosamente tudo o que deu vontade de fazer – e continuo fazendo. Só me arrependo, e muito, de algumas coisas que poderia perfeitamente ter dispensado, mas já foi. E evito pensar no passado; ele está lá, guardado, quieto.

É nessa fase que estou. Melhorei em algumas coisas, piorei em outras, mas basicamente sou a mesma; aceito melhor meus defeitos, que considero apenas características, para ficar mais leve. Posso ser tirana e também muito dócil (quando quero), simpática ou insuportável, gosto de uma vida de rotina, de saber precisamente o que vai acontecer no meu dia, ser dona de mim, enfim. Mas sei que também sou capaz, de repente, de jogar tudo para o alto e mudar tudo – meus gostos, minhas preferências e minha personalidade. E, quando tenho que tomar uma decisão repentina, sempre penso: “E, no fundo, por que não?”. E faço, claro. Às vezes fico na dúvida: não sei se tenho personalidade alguma ou se tenho muitas, tal a minha capacidade de me virar pelo avesso. Tive a sorte de viver, desde muito cedo, coisas às quais poucos têm acesso. Hoje me pergunto se foi sorte ou se de alguma maneira contribuí para que essa sorte acontecesse. A vida me deu tudo o que poderia me dar, de bom e de ruim. Nada me foi poupado: ela foi completa nos dois sentidos. Penso como o escritor Elie Wiesel, que um dia disse: “Depois de tudo o que já vivi, nada que me aconteça poderá me fazer muito feliz, nem muito infeliz”.

Texto retirado do livro de Danuza Leão, Quase tudo (Companhia das Letras)

*com adaptações

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