Ouro de tolo


9492501Aos 4 anos de idade eu lembro que embarquei num avião monomotor pra encontrar com meu pai no Cripurizão, garimpo próximo a Itaituba. Nessa época eu deveria está freqüentando a escola como toda criança da minha idade – eu até freqüentava, mas ir ao encontro do meu pai parecia ser mais divertido.

Lembro também que eu e a minha mãe desembarcamos  na cidade de Jacareacanga. O meu pai esperava por nós. Beijos, abraços e calor. Talvez o tempo, as fantasias de menina e as historias que ouvi ao longo desses 19 anos depois que visitei o garimpo pela primeira vez façam desse depoimento algo não tão verdadeiro – ou verdadeiro demais.

Se eu pudesse dizer que o calor poderia se transformar num cheiro, diria que o garimpo tem cheiro de calor. Esse negócio de cheiro de ouro é apenas pra estampar notícia. E a cor daquele lugar é a poeira – quase não se ver nessas bandas tons rosa ou vermelhos – apenas nas roupas e lábios das prostitutas – que tem aos montes por lá. Mas algumas são tão tristes que chegam a ser confundidas com a poeira.

itaituba-2Foi no garimpo que ganhei meu primeiro boneco (o). Dei a ele o nome de Cascatinha – ele é uma mistura de boneco assassino com Zacarias (da Turma do Didi) – tenho o monstrinho até hoje, meu pai não é muito bom na hora de escolher presentes. Ficamos hospedados na casa de um irmão dele que já tinha ‘constituído’ uma família lá (e hoje moram em Santarém). A casa era de madeira, simples e de chão batido. Meu pai usava aqueles shorts que batiam na metade da perna e fumava muito. Levamos mais cigarros do que boas noticias quando íamos pra lá.

Algumas coisas ele revendia – o cigarro era uma delas. No garimpo só existem duas moedas: o ouro ou a vida. Tem gente que prefere pagar com a vida.

Tenho duas lembranças desse lugar: o Cascatinha e uma pepita de ouro que uso até hoje. Um dia perguntei da minha mãe porque ela não usava ouro: enjoei – ela respondeu. Meus irmãos e meu pai também não têm mais ouro dessa época – como a saga do ouro é feita de ciclos, seus benefícios (se é que existe algum) também os são.

Um novo velho ciclo

Os anos passam e pouco coisa muda. As pessoas continuam em busca do ouro com a esperança de mudar de vida – nem que seja pra pior. Uns enricam, gastam com festas, mulheres e bebidas. Perdem tudo e voltam pra beira do rio. Um dia desses um ‘velho’ de seus mais de 60 anos estava capinando o quintal da casa dos meus pais e minha mãe comentou que ele já tinha sido muito rico no tempo do ouro. Hoje precisa capinar quintal pra sobreviver – eu conclui. Como esses tem aos montes por aí vendendo balas na rua, trabalhando de taxistas ou caminhoneiros, outros ainda estão iludidos com a brilho do ouro. Outros morreram ou mataram.

**Esse post é uma introdução pro post a seguir 🙂

*a foto é de Itaituba (2008) e é meramente ilustrativa

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4 comentários sobre “Ouro de tolo

  1. Irlan Silva disse:

    A sua história me trouxe lembranças da minha infância em Itaituba. Vivenciei as atrocidades cometidas em nome do ouro, são lembranças que marcaram minha vida. Até parece que foi ontem que deixei a velha Itaitba, no entanto, já faz 15 anos que não piso em solo Itaitubense. Cresci em um ambiente de pobresa no bairro Piracanã, levado pela minha que, como muitos, buscava o ouro de tolo.
    Nessa época, talvez em 1989, o bairro era lotado de pessoas, mas com o passar do tempo as pessoas começaram a migrar para outros Estados. Vi aquele bairro ficar tão vazio quanto a alma dos garimpeiros.
    Hoje, dou graças à Deus que minha mãe não ficou enterrada em um garimpo itaitubense. Sei que a vida que ela levou nesse período não foi fácil.
    Estou me formando em Medicina e pretendo visitar Itaituba.

  2. Irlan Silva disse:

    A sua história me trouxe lembranças da minha infância em Itaituba. Vivenciei as atrocidades cometidas em nome do ouro, são lembranças que marcaram minha vida. Até parece que foi ontem que deixei a velha Itaitba, no entanto, já faz 15 anos que não piso em solo Itaitubense. Cresci em um ambiente de pobresa no bairro Piracanã, levado pela minha mãe que, como muitos, buscava o ouro de tolo.
    Nessa época, talvez em 1989, o bairro era lotado de pessoas, mas com o passar do tempo as pessoas começaram a migrar para outros Estados. Vi aquele bairro ficar tão vazio quanto a alma dos garimpeiros.
    Hoje, dou graças à Deus que minha mãe não ficou enterrada em um garimpo itaitubense. Sei que a vida que ela levou nesse período não foi fácil.
    Estou me formando em Medicina e pretendo visitar Itaituba.

  3. paulolee disse:

    legal sua historia,sou de miritituba,ha 15 anos que sair de lá e faz 05 anos que não fui aí, sintos saudades de tudo e de todos, moro na bahia costaria de me comunicar com a galera daí ………………………abraço.

  4. Rui alencar disse:

    Lendo o seu comentério onde o mesmo me fez recodar da minha infância vivida nessa cidade, pois sair de itaituba aos 10 anos de idade e lembro que era uma cidade muito violenta, mas sinto saudades de itaituba,hoje moro no Piauí. lembro o nome de muitas ruas daí e muitos lugares, abraços…

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