Retrô – bairro do Uruará


bairro-do-uruara-meninasAcompanhando algumas reportagens a respeito da situação no bairro do Uruará (em Santarém) eu vou publicar de novo um material feito exatamente nesse mesmo período [de chuva e casas alagadas] pra quem sabe refrescar a memória de alguns dos nossos governantes que por ventura acessarem o blog. Todo ano é a mesma coisa. Chove. Alaga. Perdem casa. Surgem novas palafitas. E parece que o PAC [programa de aceleração do crescimento] só fez ‘acelerar’ os transtornos vividos por esse povo.

O lugar, é claro, fica na beira do rio e parte do ano os moradores precisam andar de um lado para o outro sobre pontes improvisadas de madeiras. As palafitas, que são as casas, abrigam famílias numerosas, principalmente quando o assunto é criança. Essas estão por toda a parte e são cativantes. Se os moradores querem sair de lá, ah não. Eles gostam dali. A maioria nasceu, foi criada e hoje cria os seus filhos naquela vida. Parte sobre a água. Parte em terra seca. Mas voltando ao trabalho da faculdade. Questionamos com o professor que era necessário falarmos desse bairro. Fizemos uma visita prévia durante um sábado de 2008  (quando aproveitei pra tirar essas e outras 139 fotos). Chovia muito na cidade, mas já estamos lá e de forma alguma não iríamos voltar. Saímos a caça de um abrigo e de alguém que pudesse saciar a nossa sede de conhecer o bairro. Andamos menos de uma quadra e chegamos até a cada da dona Márcia, uma das representantes do bairro. Lá ela nos ‘mostrou’ o bairro e indicou com quem falar.

Eu!

Eu sempre me interessei em falar de pessoas ou de lugares. Assim que decidimos que iríamos falar a respeito daquele bairro, coloquei o pé na frente e disse: ‘eu vou fazer o perfil de um comércio”. Dito e feito. Ninguém se absteve e eu topei entrar na arapuca que eu mesma armei. Mas tudo foi só felicidade. Perguntei de um comércio pra dona Márcia. Deixei claro o que queria e ela disse “tem o Beira Rio”.

Depois de alguns metros caminhados estávamos eu o Beira Rio de frente um para o outro. A parede de madeira é parcialmente coberta por cartazes de cerveja e refrigerante davam ao lugar o jeito urbano de ser. Mas por dentro a situação é outra. Detalhe, não é possível mais saber que cor tem a parede na parte externa.

No comércio – que sobrevive há mais de 20 anos naquele bairro, 12 anos só na mão da família da dona Oscarina e do seu Edmilson, é possível encontrar de tudo. Do remo ao esmalte. Do pão a bermuda de surfista. Os produtos disputam as poucas prateleiras do lugar. Algumas coisas vão para no teto ou ficam dependuradas por fios diante dos olhos dos clientes. Em uma vitrine ao lado do balcão de madeira são guardados os produtos menores, como os de armarinho e o pão, fabricado no fundo do comércio. Agora saber por que não é possível saber a cor da parede? bairro-do-uruara-os-famosos-fiados Lá o labor começa cedo. As três da madrugada eles acordam e já começam a assar o pão. Depois abrem as portas e os primeiros clientes já estão a espera dele quentinho. O Beira Rio só vai baixar as portas às 23 horas, quando o último pescador cansado da prosa e de beber cachaça diz que vai pra casa descansar.

Trocando miúdos

bairro-do-uruara-pescadorMas o lugar é formado por pessoas simples e de vida sofrida. O que ganham é pouco. É preciso ‘jeito’ pra sobreviver. A dona Oscaria e o seu Edmilson encontraram uma maneira boa de auxiliar. Como os recursos são poucos e mais da metade da população vive da pesca e precisam comprar o que comer, eles adotaram no comércio a venda de produtos fracionados, o que eu particularmente achei super interessante. Até o óleo de cozinha eles devem de acordo com o que a pessoa pode pagar. Açúcar, farinha, feijão, arroz, macarrão e bolachas estão na lista dos que não podem faltar na cota dos fracionados.

O jeito simples e honesto da família do seu Edmilson e da dona Oscarina parece que passa de pai para filho e cativa também os moradores. Na meia hora em que tivemos a nossa primeira conversa, o lugar ficou lotado, principalmente de crianças. Elas iam fazer um favor aos pais, comprar um chiclete ou simplesmente saber o que estava acontecendo. Concluímos a conversa com pipoca doce e guaraná. bairro-do-uruara-alagado

O retorno

Depois de uns dias eu volto na casa dos comerciantes, agora com um microfone na mão, uma idéia na cabeça e um prazo para cumprir. Tento convencer novamente a dona Oscarina que seremos breves. Fiquei de avisar quando íamos, mas diante dos atropelos do dia a dia, esqueci. Ela cedeu, mas disse que não queria ser entrevistada. Achei sensato concordar e sai em busca de quem pudesse falar. A filha mais velha topa e a entrevista fica show. Ela toma os espaços e muda tudo o que eu tinha planejado, mas deixa. Levou-nos a conhecer o lugar, mostrando cada ponto e evidenciado o que a mercearia tem de peculiar (esperta e marketeira). Revendo os vídeos e trabalhando no OFF pude relembrar o começo dessa história. Não foi fácil resumir 12 anos em pouco mais de um minuto. ]

Nem foi fácil escolher as melhores cenas, mas pelo menos a trilha sonora está garantida >>>Novos Baianos<<<!

A dona Oscarina está me devendo um peixe e em breve devo ir cobrar. . .

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3 comentários sobre “Retrô – bairro do Uruará

  1. ITAMAR DA SILVA FERREIRA disse:

    EU MI CHAMO. ITAMAR DA SILVA FERREIRA E A MINHA FAMILIA TODA MORA NO BAIRRO DO URUARA, É EU GOSTO MUITO DO URUARA MAS OS NOSSOS GOVERNANTE TEM QUE OLHAR PRO URUARA, QUE É UMA DOS MAIORES BAIRROS DE SANTARÉM.

  2. Ednildo dos Santos Barros disse:

    Ola! obrigado por escolher o bairro do uruará para falar da situação que vive aquele povo enganado por esse fiasco de projeto que é o PAC. Sou morador de uma parte mais do bairro que não alaga, mas trabalho em oriximina e mês passado quando estive ai fotografei a obra e pude constatar a péssima qualidade dos serviços. Mais uma vez estão jogando nosso dinheiro fora, ou pior estão jogando pelo esgoto malfeito que corta a orla e que certamente ira transbordar na próxima enchente que raiva! ah! parabens você escreve maravilhosamente bem, seu estilo de escrever tem oque nois chamamos de hapór na linguagem.

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